{"id":633,"date":"2012-02-29T02:09:49","date_gmt":"2012-02-29T02:09:49","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ata-divisions.org\/PLD\/?p=633"},"modified":"2017-09-22T02:10:33","modified_gmt":"2017-09-22T02:10:33","slug":"a-pele-que-habito-interpretes-como-mediadores-em-sistemas-juridicos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ata-divisions.org\/PLD\/2012\/02\/29\/a-pele-que-habito-interpretes-como-mediadores-em-sistemas-juridicos\/","title":{"rendered":"A pele que habito: int\u00e9rpretes como mediadores em sistemas jur\u00eddicos"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: left;\" align=\"right\"><em><strong>Por Luciana Carvalho<\/strong><\/em><\/p>\n<p>Todo mundo j\u00e1 deve ter passado por uma situa\u00e7\u00e3o em que foi mal entendido. Nessas horas, \u00e9 comum nos lembramos de nossos pais, irm\u00e3os, amigos, enfim, de gente pr\u00f3xima que certamente nos \u2018entenderia\u2019. E essa lembran\u00e7a \u00e9 perfeitamente justific\u00e1vel. Deve-se ao poder comunicativo que uma rela\u00e7\u00e3o fraternal nos concede. Roland Barthes, em seus\u00a0<em>Fragmentos de um Discurso Amoroso<\/em>, descreveu essa rela\u00e7\u00e3o como portadora de uma linguagem semelhante a uma pele. Uma pessoa \u201cesfregaria sua pele\u201d na outra. Ela teria \u201cpalavras no lugar dos dedos, ou dedos na ponta das palavras\u201d.<\/p>\n<p>Entretanto, a maioria das rela\u00e7\u00f5es interpessoais n\u00e3o \u00e9 regida pelo esp\u00edrito fraternal, no qual, al\u00e9m das palavras, todo o contexto \u00e9 identific\u00e1vel por ser, em grande extens\u00e3o, compartilhado e envolvido por uma mesma\u00a0<em>pele<\/em>. Para sermos capazes de nos comunicar al\u00e9m das rela\u00e7\u00f5es fraternais e de modo a assegurar as demais rela\u00e7\u00f5es interpessoais criam-se conven\u00e7\u00f5es sociais que, uma vez eleitas, comp\u00f5em um sistema legitimado \u2013 e compartilhado \u2013 por uma comunidade maior.<\/p>\n<p>O sistema jur\u00eddico \u00e9 reflexo dessa\u00a0<em>convencionaliza\u00e7\u00e3o<\/em>, pois por meio dele s\u00e3o organizadas e interpretadas determinadas conven\u00e7\u00f5es com o intuito de garantir e atribuir, aos que est\u00e3o inseridos em uma comunidade, direitos e deveres. Cria-se, dessa maneira, al\u00e9m das obriga\u00e7\u00f5es jur\u00eddicas, todo um subuniverso lingu\u00edstico especializado, que existe paralelamente ao da comunidade. Um subuniverso com particularidades pr\u00f3prias, cujo aspecto fraternal \u00e9 m\u00ednimo e afasta \u2013 ou at\u00e9 mesmo repele \u2013 aqueles que n\u00e3o possuem o dom\u00ednio de sua linguagem e conven\u00e7\u00f5es. Ainda assim, em um mesmo universo lingu\u00edstico (e.g. que adota o portugu\u00eas do Brasil), ao menos todos que nele est\u00e3o inseridos falam a mesma l\u00edngua e entendem em maior ou menor grau a complexidade das rela\u00e7\u00f5es sociais. Consequentemente, nesse contexto, os agentes do poder judici\u00e1rio s\u00e3o capazes de articular sem grandes conflitos \u2013 por\u00e9m n\u00e3o livre deles \u2013 a rela\u00e7\u00e3o entre o leigo e a linguagem espec\u00edfica.<\/p>\n<p>Agora, reflita sobre quando diferentes sistemas se cruzam ou se sobrep\u00f5em colocando os especialistas de ambos os lados em contato. Obviamente \u00e9 necess\u00e1ria a correta tradu\u00e7\u00e3o de termos espec\u00edficos que n\u00e3o encontram correspondentes diretos em cada um dos universos envolvidos. Essa, por si s\u00f3, j\u00e1 seria uma tarefa dotada de significativa complexidade, j\u00e1 que nela se encontram, n\u00e3o s\u00f3 as dificuldades de comunica\u00e7\u00e3o resultantes das particularidades dos sistemas jur\u00eddicos envolvidos, mas tamb\u00e9m a possibilidade de ru\u00eddos decorrentes das diferen\u00e7as culturais entre os dois sistemas.<\/p>\n<p>Nesse caso, al\u00e9m dos desafios lingu\u00edsticos c\u00f3digos \u00e9ticos, h\u00e1 possibilidade de haver choque cultural. Esse ocorre toda vez que uma manifesta\u00e7\u00e3o que produz um elemento estrangeiro ao sistema se v\u00ea nele entrela\u00e7ado produzindo efeito outro que n\u00e3o o desejado pelo emitente. Fica ent\u00e3o evidente, e se prova necess\u00e1ria, a atua\u00e7\u00e3o de um mediador que domine tanto a linguagem dos sistemas em quest\u00e3o quanto os h\u00e1bitos lingu\u00edsticos das culturas estrangeiras que se encontram. Um profissional capaz de fazer tanto a correspond\u00eancia terminol\u00f3gica espec\u00edfica dos sistemas jur\u00eddicos entre os dois universos lingu\u00edsticos como a orienta\u00e7\u00e3o dos interlocutores envolvidos.<\/p>\n<p>Da primeira situa\u00e7\u00e3o, um exemplo seria a necessidade de o tradutor ou int\u00e9rprete de conhecer as nuan\u00e7as do termo\u00a0<em>law<\/em><em>\u00a0<\/em>no ingl\u00eas, e ser competente para decidir em que situa\u00e7\u00f5es empregar as diversas tradu\u00e7\u00f5es desse termo em portugu\u00eas.<\/p>\n<p>A segunda situa\u00e7\u00e3o pode ser ilustrada com a capacidade de o int\u00e9rprete-mediador orientar seu cliente estrangeiro, um\u00a0<em>attorney\u00a0<\/em>nesse caso, dizendo a ele, por exemplo, que tipo de constru\u00e7\u00e3o frasal funcionaria melhor para se obter a resposta de maneira mais direta poss\u00edvel de uma testemunha brasileira, a qual ele estaria inquirindo.<\/p>\n<p>Imagine a cena: uma testemunha brasileira \u00e9 indagada por um juiz norte-americano sobre sua a profiss\u00e3o. \u201c<em>Are you a journalist<\/em>?\u201d, pergunta o juiz. \u201cVoc\u00ea \u00e9 jornalista?\u201d, diz o int\u00e9rprete. \u201cVeja bem\u201d, diz o brasileiro, \u201cultimamente eu estava trabalhando de\u2026\u201d.\u00a0<em>\u201cLately, I have been working\u2026\u201d<\/em>, continua o int\u00e9rprete.<\/p>\n<p>O juiz norte-americano assume um olhar intrigado com a resposta, pois ele\u00a0<em>espera\u00a0<\/em>\u2013 e quer \u2013 uma resposta objetiva. A testemunha brasileira acha importante explicar todos os detalhes de sua carreira profissional informando sobre o que ela pr\u00f3pria acha mais relevante sobre o que significa ser ou n\u00e3o ser jornalista.<\/p>\n<p>Essa simples situa\u00e7\u00e3o pode causar efeitos adversos ao processo judicial. Explico. Na cultura anglo-americana, existem as chamadas\u00a0<em>yes or no questions<\/em>. De trato mais pragm\u00e1tico, os anglo-americanos ficam chateados ou contrariados quando a suas\u00a0<em>perguntas<\/em>\u00a0n\u00e3o s\u00e3o dadas respostas objetivas, iniciadas por sim\/n\u00e3o nesse caso.<\/p>\n<p>Eles est\u00e3o acostumados a uma resposta do tipo \u201c<em>answer first<\/em>\u201c, ou seja, primeiro responda (\u201cSim, sou jornalista\u201d. \u201cN\u00e3o, n\u00e3o sou\u201d.) e s\u00f3 depois explique \u2013 e se, porventura, lhe for perguntado. Qualquer comportamento que se esquive dessa normalidade pode gerar antipatia e truncar a comunica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Ao int\u00e9rprete e ao tradutor, que fazem a media\u00e7\u00e3o entre sistemas jur\u00eddicos, \u00e9 imprescind\u00edvel n\u00e3o apenas conhecer a terminologia jur\u00eddica, mas tamb\u00e9m dominar os aspectos culturais, orientando o cliente acerca de fen\u00f4menos lingu\u00edsticos que, em princ\u00edpio, poderiam at\u00e9 parecer banais, mas que em muitos casos t\u00eam o cond\u00e3o de acelerar o procedimento, minimizando o tempo gasto em depoimentos, o trabalho dos ju\u00edzes e honor\u00e1rios de advogados.<\/p>\n<p>\u00c9 por isso o tradutor ou int\u00e9rprete tem, muitas vezes, como aspecto importante de seu trabalho de especialista em comunica\u00e7\u00e3o, a prepara\u00e7\u00e3o das partes, das testemunhas, dos advogados e mesmo do juiz ou \u00e1rbitro para lidar com a cultura estrangeira. Trata-se de um trabalho altamente especializado no qual o tradutor e\/ou int\u00e9rprete qualificado \u00e9 o \u00fanico profissional capaz de recuperar um entendimento mais fino da\u00a0<em>pele\u00a0<\/em>habitada pelos envolvidos na rela\u00e7\u00e3o processual, dando fluidez \u00e0 comunica\u00e7\u00e3o entre os interlocutores e reduzindo o tempo e recursos despendidos.<\/p>\n<hr size=\"1\" width=\"33%\" \/>\n<p>Luciana Carvalho \u00e9 advogada, tradutora e int\u00e9rprete, professora do Curso de Forma\u00e7\u00e3o de Int\u00e9rpretes da PUC\/SP e s\u00f3cia da TradJuris \u2013 Law, Language &amp; Culture. \u00c9 tamb\u00e9m f\u00e3 incondicional de Almod\u00f3var. Contato:\u00a0<a href=\"mailto:luciana@tradjuris.com.br\">luciana@tradjuris.com.br<\/a>\u00a0e\u00a0<a href=\"mailto:lcarvalho@pucsp.br\">lcarvalho@pucsp.br<\/a>.<\/p>\n<p>Para ler mais sobre choque cultural, consulte Carvalho, L. (2010)\u00a0<a href=\"https:\/\/www.tradjuris.com.br\/mensagem\/pub\/mensagem.php?tipo=1&amp;id_mensagem=custom_artigos\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Tradu\u00e7\u00e3o Jur\u00eddica e Choque Cultural<\/a>. In:\u00a0<em>Ciclo de Palestras sobre Tradu\u00e7\u00e3o do CITRAT &amp; DLM, FFLCH, USP.<\/em><\/p>\n<p>Para ler mais sobre a tradu\u00e7\u00e3o de\u00a0<em>Law<\/em>, consulte Carvalho, L.\u00a0 (2008) \u201c<a href=\"https:\/\/www.migalhas.com.br\/LawEnglish\/74,MI56351,31047-Leis++convenios+e+resolucoes\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Leis, conv\u00eanios e resolu\u00e7\u00f5es<\/a>\u201d e Carvalho, L.\u00a0\u00a0 (2008) \u201c<a href=\"https:\/\/www.migalhas.com.br\/LawEnglish\/74,MI74967,41046-Mais+sobre+law+e+act\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Mais sobre law e act<\/a>\u201c.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Luciana Carvalho Todo mundo j\u00e1 deve ter passado por uma situa\u00e7\u00e3o em que foi mal entendido. 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